Friday, November 24, 2006

 




















“A pintura é a mais bela das artes; nela se concentram todos os sentimentos; ao olhá-la, os observadores conseguem criar um romance através da imaginação; um simples relance pode lançar a alma nas mais profundas recordações, um ligeiro esforço de memória e tudo se concentra instantaneamente. É uma arte completa que concentra todas as outras artes e as completa.”

PAUL GAUGUIN


Este quadro de Hopper não é nem de longe um dos seus mais conhecidos, mas é um dos meus favoritos.
Em largas pinceladas, grosseiras, de carácter simplista e desajeitado, mas arrojadas e originais, prende e não mais larga o olhar. De imediato imagino o Cabo da Roca, a praia da Ursa, uma caminhada desde o Guincho, pelas arribas de cem metros, o constante conflito entre mar e rocha traduzido num eterno e surdo som do rebentamento das ondas, a natureza insólita, inóspita, bruta e selvagem.
Sinto de imediato em mim a vontade que Hopper teve em imortalizar este cenario e o que nos quis transmitir com a sua pintura.

Monday, March 27, 2006

 

Alange - escalada



Alguns meses invernais, escuros, sem gosto nem jeito, tinham-me lentamente retirado a vontade de praticar esta actividade. Ela estava esquecida, arrumada lá muito no fundo do meu espírito, coberta e imobilizada por pesadas camadas de outros assuntos por resolver.
Escalar quase já não fazia parte do meu vocabulário, e de cada vez que passava pela mochila que contém arnês, expressos, pés de gato, fazia contas em como iria empandeirar o equipamento.


Foi não contar com a insistência do mais que generoso amigão Trindade, que, com o seu sexto sentido e sensibilidade para os amigos, sentindo a inércia que me vencia, me deu o empurrão que necessitava.
Obrigou-me a dizer que sim, que os acompanhava. “E agora já não podes dizer que não”, associado a vários telefonemas e mensagens a solicitar confirmação. É a ele e a mais ninguém que tenho de agradecer o facto de ter ido.
Saí de casa de madrugada, um pouco contrariado, confesso. Mas no momento em que vejo o António (outro nome do Trinitá) e o Álvaro, a alegria destas escapadelas invadiu-me por completo e voltei a sentir-me o antigo Henrique, cheio de entusiasmo pelo fim-de-semana que se avizinhava.
Alange, quinze quilómetros a sul de Mérida foi desta vez o nosso destino. Três horas de estrada, incluindo a tradicional pausa-café e estacionámos o carro no parque de estacionamento ao lado de uma enorme albufeira e a respectiva barragem, de onde saía um trilho íngreme que nos levou de imediato às falésias.
E lá estavam eles, os camaradas que tão poucas vezes vemos no ano, mas (se calhar por isso mesmo) tanto gosto temos em rever.
O Miranda e a sua simplicidade e sabedoria de sessenta anos. Pequeno e seco, irradia a paz, sagacidade e discrição tranquilizadora de um monge budista.
O eterno e incontestável chefe Jorge Gomes, notando-se agora um ou outro pêlo branco nas espessas e negras sobrancelhas, sinal de que o tempo não pára nem poupa, mas que não parou de abrir vias, a tentar matar um pouco todo o vício acumulado pelo Inverno. Nem sequer metralhou muito com a sua negra máquina fotográfica, tal era a ânsia de experimentar dedos e pontas dos pés nas vias “miudinhas” que por todo o lado se apresentavam. Boné de ciclista azul com pala para trás, só o víamos naquele seu estilo eficaz a vencer todos os obstáculos da excelente rocha quartzítica das paredes de Alange.


O Paulo Martins, Meia-Tenda para os amigos, seco e magro como sempre, convertido ao macrobiotismo ligeiro de quem come bife ao almoço e jantar, a curtir o ano sabático que gentilmente e para mim incompreensivelmente a administração da Europa lhe concedeu. É que ele é funcionário europeu. Este ano estando a chegar ao fim, prontamente já meteu requerimento para mais um ano, pois não esgotou todas as massas nem conseguiu terminar os vários cursos (fotografia, produção de filmes, etc) em que se envolveu. Adivinhamos no entanto o problema que será quando terá de voltar ao escritório, esquecidas que estão as rotinas diárias e a dolce vita profundamente enraizada. Não vai ser fácil, camarada.
Foi ele o meu companheiro de cordada. Ainda agora fecho os olhos e vejo aquelas calças verdes-alface, que a perspicácia dos onze ou doze anos (não sei quantos, mas tento adivinhar) da Mafalda catalogou de “calças à gaja” e que ele confessou que realmente eram, visto não ter encontrado número adaptado na secção de “gajos”. Há coisas que só as crianças detectam.
O Trinitá fazia parelha com o Álvaro e não pararam de subir e descer, a toda a mecha, fazendo jus à persistência dos treinos invernais no rocódromo. Hoje em dia são eles as estrelas da companhia, com todo o merecimento. Estão umas máquinas infernais, rocha é simplesmente com eles, não deixam nada para trás. Não é por acaso que actualmente os chamam de "cordada maravilha".


A Ana Loureiro, que eu não conhecia, mas de quem já tinha ouvido falar. Com dois sonoros “dass” deliciosamente exprimidos no momento em que quase ia deixando algumas unhas num passo mais complicado, conquistou-nos a todos de imediato.
Como o binómio feminilidade-palavrão das obras, quando bem aplicado, na altura certa, pode não chocar, pelo contrário, soa bem. Foi o caso. Ficou-lhe bem, foi bonito de se ouvir.

Emprestou-me um creme de protecção solar de um nunca visto grau 50+, que prontamente passei na minha desguarnecida cabeça, pois o sol era forte. Ainda hoje, depois de lavar por três vezes a cabeça, não o consegui retirar por completo. Vou ter de arranjar um desengordurante ainda mais potente para o próximo banho.
Para a recompensar ainda tive oportunidade de lhe deitar o bocadilho para o lixo (claro que foi sem querer), enquanto arrumava os diversos sacos de plástico que por ali pousavam, na tentativa de colaborar com a limpeza do meio-ambiente.
O novo aprendiz de maçarico, o Filipe, massacrado constantemente pelo Trinitá, que não lhe deixou um minuto de tréguas. Até lhe ordenou para que quando falasse não se atrevesse a olhar directamente para os olhos. Pelo menos enquanto ainda não fosse maçarico. O Filipe está a estudar matemática, a última cadeira que lhe falta para poder se inscrever no curso superior que quer frequentar, o de gestão do ambiente. E pela conversa que tivemos, de certeza que não vai ter problemas, quanto a mim, pois apresenta um nível mais que aceitável para curso superior.
O Nuno, jovem monitor de escalada, surpreendentemente grande conhecedor e admirador de pintura impressionista, faceta que eu não lhe conhecia. Contou-me sobre as suas visitas aos museus franceses. É um personagem interessante e havemos de falar bem mais.
A Ercília e o companheiro que recentemente adquiriram uma carrinha monovolume, totalmente equipada para viajar e acampar, com beliches, fogão, armários, frigorífico, que quase me despertou um sentimento de inveja perante a demonstração completa das suas potencialidades.
Como vêem, para quem quiser aprofundar um pouco os contactos, vão-se descobrindo verdadeiros tesouros nesta malta escaladora, à partida injustamente rotulados de malucos incultos e pouco imaginativos pela maior parte das pessoas. Falso, totalmente falso.
A Ana Nery, que não perdeu nada da sua elegância na rocha, fortemente aplaudida após a subida da via mais difícil que se nos apresentou e o pesadão companheiro Peixoto, sempre pronto para uma briga de palavras sobre os direitos que o cidadão fumador deveria possuir neste mundo. (Mas não possui, e estão a ser constantemente diminuídos, felizmente).
Para nos relembrar que a escalada é potencialmente perigosa, e que todos os cuidados são poucos, o João teve uma queda algo comprometida, de cabeça para baixo, com o resultado final de um grande corte na cabeça, não se sabe bem porquê, pois foi em zona protegida pelo capacete, e uma forte contusão no ombro. Lá foi para o hospital, só voltando às duas da manhã, após radiografias, tacs, exames, etc. Felizmente não foi nada de grave, mas ao presenciar a queda (eu estava mesmo ao lado), ocorreu-me que poderia ter sido bem pior.
Desta vez houve uma notória “falta de gajas”. As escaladoras desistiram quase todas, não se sabe porquê. O Peixoto lançou a terrível e aleivosa observação de que haveria correlação entre as presenças do Trinitá e as ausências das meninas, certamente aterrorizadas ou fartas de o aturar. Boca maldosa que deixou o rapaz de rastos durante uns minutos, cabisbaixo, completamente demolido, sem vontade de subir mais uma via. Mas passou-lhe rápido, quando o patrão o sossegou, dizendo que realmente era um facto, que nunca tinha havido tão poucas escaladoras, mas que não se apercebia de correlação nenhuma. Seria uma simples coincidência que iria ser desmontada já na próxima saída a realizar em breve. Ao ouvir isto, Trindade esboçou o seu melhor sorriso e atacou-se ainda com maior fervor a uma seisbê que por ali se apresentava.
O acidente do João provocou uma certa crise, quando foi preciso pensar em lhe dar cama para a noite, a ele e à Loureiro. É que só tinhamos oito quartos já ocupados. Um deles com uma cama de casal e uma outra cama simples. O Álvaro imaginativa e retorcidamente colocou os dois escaladores na cama de casal e a Loureiro na outra cama, tudo separado pelo roupeiro colocado entre ambas as camas, de portas abertas, a servir de biombo. Que grande trabalheira que isso seria. Felizmente que a mente do Meia-Tenda, fresquinha da falta de uso pelo longo ano sabático, e nada à vontade em dormir com um escalador na mesma cama, entrou em acção e apresentou um bem melhor plano que o que a mente algo complicada do Álvaro tinha inventado. A Ana Nery e filha passavam para esse quarto, ficando assim um quarto de “gajas”, enquanto os escaladores trocavam de quarto, para duas camas separadas, poupando-os a uma noite mal dormida em cama de casal, sempre a pau com a perna do parceiro que poderia inadvertidamente entrar em contacto.


Alange é mesmo bonito. Para quem teve o cuidado de virar de quando em quando as costas às paredes, pôde observar uma paisagem lindíssima, até muito longe, água e campos a perder de vista, assim como dezenas de cegonhas a pairar no ar. (Gaivotas, dizia a Mafalda).
Além disso, Alange tem boa cerveja. Prova disso foram os fins-de-tarde passados nos bares, a picar diversas iguarias e a beber os tubos e canhas que se nos iam apresentando pela frente.

Escalei o que havia a escalar, cuidadosamente, sem grandes aventuras nem riscos. As vias estavam muito bem protegidas, plaquetes muito perto umas das outras. Por vezes perto demais. Refiz a mão e no final senti-me de novo à vontade, e mais, com o apetite de novo presente, a pensar na próxima saída a que certamente não faltarei.


O comentário na volta, em uníssono (Trinitá, Álvaro e eu) : Isto não falha. Mais um fim-de-semana do caneco, para recordar.

Tuesday, March 21, 2006

 

Tennis - Interclubes

Interclubes +50 anos

Domingo, última jornada do nosso grupo. Recebemos o Torres Vedras. Dentro do court não tiveram hipóteses. Nós ainda estamos muito aguerridos da campanha do ano passado. 6-0 6-2 para mim, 6-1,6-2 para o Brito, 6-1 6-1 para o par. Às 15.15 estava tudo terminado, após algumas resmungadelas do adversário sobre as duplas faltas que faziam e a nossa falta de piedade, pois não deixávamos ponto nenhum por fazer.
Fora do court, deram-nos de avanço. Fomos beber umas merecidas imperiais, conversa puxa conversa, primeiro sobre velhice, a nossa preocupação em manter a integridade física durante um jogo, depois a já clássica gripe das aves, toda a gente que come porco em vez de galinha, e não é que nos convidam a participar no torneio de veteranos que eles organizam em Setembro? “Venham, venham. A jantarada é um porco daqueles grandes, assado no espeto. Venham, inscrevam-se no torneio, e se não quiserem jogar, também não faz mal. O que interessa é o porco e esse até vai sobrar.”
É claro que a conversa animou logo.
É isto que é bom. Aos cinquenta, uma derrotazinha não faz mal nenhum, o que interessa é a camaradagem. E nesse capítulo, esmeraram-se e ultrapassaram-nos a grande velocidade.

Estamos assim apurados para a final, que tudo o indica, será contra o CIF. Mas aí a música vai ser outra, pois esses não brincam em serviço. Para esses não existem almoçaradas de porcos para oferecer, mas sim, se possível, raquetadas na cabeça do adversário. Ganhar a todo o custo é o lema deles. Vai haver guerra.

 

Planadores e porco à "Obelix"


Almoço comemorativo

Este sábado não houve actividades do tipo físico.
Participei no almoço anual comemorativo do clube de voo à vela de Portugal.
Para os que nunca ouviram falar de tal actividade, trata-se de voar em aviões sem motor, confiando unicamente no talento de descobrir correntes de ar ascendentes que nos elevam nas alturas e aproveitar a sua grande capacidade de planar, descendo lentamente, até encontrar outra corrente ascendente. Se não encontrar, tem de pousar.
Nada de motores nem o seu ruído incomodo. Só o silvar do vento, os delicados comandos e a argúcia baseada em algum conhecimento em encontrar as desejadas ascendentes.

Um pouco à maneira das águias, abutres, grifos, os quais evitam sempre despender energia em movimentos de asas.
Eu próprio nunca pratiquei este desporto, mas tradição na família, existe. O meu pai, com quase oitenta anos, não perde um fim-de-semana para o fazer. A minha mãe deixou de o fazer há uns anos, mas foi pioneira na actividade e detentora de vários recordes em Portugal, um dos quais, o de distância máxima, que perdurou por mais de uma década.
Voei uma ou duas vezes na sua companhia, uma delas sobrevoando a serra de Gredos, em Espanha, a partir de Ávila. Lembro-me do silvar do vento e da insólita parelha formada com uma águia que aproveitava a mesma ascendente, circulando à nossa volta, cada um na tentativa de conquistar espaço ao outro.

O almoço comemorativo foi realizado no clube de tiro na Ota. Para os membros activos do grupo, certamente que se trata de mais uma confraternização, pois não há fim-de-semana em que não estejam juntos. Interessante é para aqueles que o deixaram de fazer há uns tempos. Têm assim oportunidade de rever pessoas, antigos companheiros, que a solidariedade de efectuarem o mesmo desporto, criaram laços indeléveis no tempo. E foi o que aconteceu.
A minha mãe apresentou-me a uma senhora da sua idade, dizendo. “Este é o meu filho mais velho. Lembra-se dele?”
E lá vinha o comentário mais que comum: “Ena tão grande (não se atreviam a dizer –tão careca que ele está), lembras-te de mim, quando eu ia convosco e a tua mãe para o Guincho?”
Eu não me lembrava mesmo nada e respondia: “Se lhe dissesse que sim, que me lembrava, estava a mentir.” No entanto, só este laço comum criava um óptimo bem-estar de pertença a um grupo, mesmo que tenha sido há mais de quarenta anos.
Por sinal, tratava-se de Isabel Rilvas, a primeira pára-quedista portuguesa e que formou grande pandilha com a minha mãe. Veja-se assim o interesse que estas pessoas têm, as actividades que efectuavam, no contexto do radicalismo que eram há cinquenta anos. É interessantíssimo ouvir essas histórias antigas, que passam sempre pelas aterragens forçadas fora de pista, das viagens efectuadas, dos recordes batidos, etc. etc. Não se fala de outra coisa.


Preocupado com o almoço, fui investigar. Deparei assim com o enorme porco, já meio esfatiado, a assar lentamente nas brasas, cuidadosamente seguido e manipulado por dois locais, com quem estive em agradável conversa, sobre porcos, a Ota, a vida deles, etc. Dava para uma história. Claro que ao sentar-me à mesa, já tinha engolido várias febras, mergulhadas no molho bêbedo, de receita própria, oferecidas por eles, juntamente com a recomendação de não perder o arroz de feijão que a esposa de um deles tinha acabado de cozinhar. Os meus dedos foram limpos nos panos que eles penduravam à cintura.
“Está a comer muito pouco, hoje” foi o comentário que me fizeram à mesa. Calei-me e não desvendei o segredo. Pudera. Já tinha pelo menos quatro febras no bucho, comidas à mão, como manda a tradição, para estes “porcos à Obelix”. Os gauleses não tinham de certeza talheres, e se os tivessem, serviam para outra coisa qualquer.


No final do almoço houve distribuição de prémios e lembranças, desde recompensa para o melhor (também há competição), até lembrança para os mais velhos, para os que aterraram mais vezes fora da pista, etc.etc.etc. Todos foram contemplados.

Em seguida, rápida viagem de volta, para a actividade seguinte. Repouso absoluto, sobretudo não incomodem a jibóia a esmoer.


Site na net para mais informações e óptimas fotografias :
www.vooavela.net

Friday, March 10, 2006

 

Leitura

O prenuncio das águas - Rosa Lobato Faria


Estou quase no fim, ainda não o acabei de ler, mas surge-me uma necessidade imperiosa de vos falar sobre este livrinho.

O tema é simples. À volta de um acontecimento principal, o fecho de uma barragem recentemente concluída, as águas em breve irremediavelmente subirão e irão submergir uma aldeia. Poderia ser o Alqueva, Foz Côa, outra qualquer. Não está especificado, mas também não é importante.
Uma jornalista filha de emigrantes em França, por motivos pessoais, resolve vir para a aldeia, suas raízes longínquas, tentar descrever e retratar o que serão os dias finais da mesma.
O que no início parece uma pacífica e quase idílica aldeia, com os seus habitantes que vivem a um ritmo lento, pleno da sabedoria acumulada por séculos de vivências, vai-se progressivamente transformando em algo muito diferente. Vão-se descobrindo os dramas e profundos traumas que uma vida simples e parada pode proporcionar.
Vidas vividas sem loucura, sem criatividade, em que o lado animal, por mais escondido e reprimido que esteja, sempre que tem oportunidade de se manifestar, fá-lo com toda a violência, sobrepondo-se a todas as outras considerações éticas e morais, deixando-nos a impressão de que todas as vidas são realmente incontroláveis.
E à medida que as águas vão subindo, mais fundo se penetra nos cantos escuros das almas dos protagonistas, mais nos vamos afogando no negrume daquelas vidas, a ponto de nos interrogarmos: “Como é possível?”
Fez-me lembrar versos do FP, na “Mensagem – Quinta / D. Sebastião

Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia
Cadáver adiado que procria?


Vidas sem loucura, bestas sadias que espreitam a mínima oportunidade de virem à superfície.

Ainda me falta ler o último capítulo, mas não posso esperar o final para vos recomendar a leitura deste livrinho, pequeno, mas de uma riqueza e densidade enormes.

Há realmente bons autores em Portugal. É preciso é descobri-los.

 

Tennis - interclubes

Tennis, interclubes, grande e alta competição
Acabou-se o jogo, desta vez foi uma vitória
Subo à rede e, vaidoso, aperto a mão
Do adversário, que, invejoso da minha glória
Murmura despeitado : “se não fosse esta lesão
Terias sido derrotado, pois teria feito um jogão”.

No campo ao lado, o Brito, quase derrotado
Corre a uma bola mais curta que o normal
Corre coxeando, o músculo já rebentado
Voa atrás do ponto, que este é mesmo vital
Como é de adivinhar, chega mais que atrasado
O ponto foi para o outro e o Pedro está arrumado.

Há que ganhar este jogo, estamos tão nervosos
Entram em campo o nosso par Miguel e Serra
Do outro lado da rede só uma dupla de idosos
De movimentos tolhidos, com temor da guerra
Mas a eles mais parecem dois guerreiros valorosos
Não vêm que gemem com dores, sempre queixosos

Vitória, derrota, tantas batotas e discussões
Valerá a pena tantos trabalhos e canseiras
Jogar por jogar é divertido, não a competição
Competição paralisa o braço, só fazemos asneiras
Queremos ganhar, mostrar a potência do leão
Dos gatinhos que somos, mais do que isso, não.

Tuesday, March 07, 2006

 

CCB - Exposição Frieda Kahlo


Frida Kahlo.
Como gostaria de te ter conhecido.
Mas cessaste de viver um ano antes de eu me iniciar neste Mundo. Deixaste este mundo com alívio, finalmente a prisão que o teu corpo constituía, o envelope e recipiente da tua mente e espírito, tão maltratado pela roda da sorte nesta vida, abria as suas portas para poderes escapar-te de vez.
Tive no entanto a oportunidade de te apreciar e de me aperceber de pequenos elementos constituintes do puzzle complexo e tão atraente da tua personalidade, isto durante esta exposição em tua honra, no Centro Cultural de Belém.
Hoje em dia és alguém da História, o teu nome é conhecido, foste classificada por André Breton como uma pintora surrealista.
Não sei definir o surrealismo, ainda não. Hei-de lá chegar. Mas os teus quadros pareceram-me impregnados de simbolismos, fáceis de ver e sentir, todos eles elementos do tal puzzle da tua personalidade e vivências e não de sonhos que eventualmente poderias ter tido. Não são naturezas mortas, onde o factor mais importante é a técnica de pintura e efeito estético que emanam, mas sim retratos da tua alma, onde a técnica e composições cromáticas pouco importam comparados às mensagens transmitidas.
Poliomielite aos seis anos de idade, gravíssimo acidente que te destruiu a bacia e a coluna aos dezoito anos. Sobreviveste miraculosamente, unicamente para sofreres dores físicas o resto da tua vida, sabendo sempre que não havia melhoria nem solução. Que desespero deve ter sido para alguém com tanta vontade de liberdade física e espiritual.

Tive a oportunidade de ver algumas fotos tuas, criança pequena, cara robusta e de certa maneira tosca e forte. Outra foto mostrando uma jovem, não sei se antes ou depois do acidente, cheia de personalidade, um pouco de arrogância e orgulho na pose, segurança, não muito bonita, mas plena de vida. Indomável, foi o que me ocorreu. Deves ter sido indomável.
Outras fotos mostram o teu pai, de origem alemã e a tua mãe, mexicana. Mistura explosiva, dirão alguns. Grande dicotomia, algum conflito, digo eu, pois detectei que assinas os teus quadros, às vezes como alemã (Frieda, o teu nome correcto), outras como mexicana (simplesmente Frida), esquecendo o “e” germânico.

Casaste-te com Diego Rivera, pintor mexicano, pontualmente íntimo de Picasso, que transitou pelos estilos de pintura da época. Impressionismo, cubismo, até se fixar nas pinturas murais, com estilo próprio, após influências adquiridas durante a sua estadia em Itália. Personalidade controversa, conflituosa, provocador em demasia, bem expressa pelos cancelamentos de contratos de murais que ele executava, um nos Estados Unidos por ter pintado a cara de Lenine, outro em Moscovo, por ter incluído Trotsky.
Não deve ter sido uma relação fácil. Mas a frase lá exposta sobre Rivera diz muita coisa.

Também tu não deves ter sido fácil. Detecta-se imprevisibilidade, instabilidade, aborrecimentos e consequentes mudanças radicais. Devias passar por cima de tudo e de todos, sem olhar para trás, deixando estragos, cacos e ruínas fumegantes.

Dia a dia vestias-te com uma originalidade sem limites, no limiar da extravagância, adoptando tecidos e formas tradicionais dos mais antigos habitantes da tua Terra. Três desses vestidos estão aí expostos. O do meio, com tons de azuis, amarelos e encarnados, em padrões finíssimos, é muito sinceramente um quadro digno dos melhores mestres. Só por si vale a deslocação ao CCB.

As tuas pinturas não são as mais estéticas, muitas vezes composições cromáticas apagadas, tristes, sem relevo especial. Mas como já referi, reflectem o estado de espírito, a tua vida, os teus sentimentos, o que me fez passar duas horas muito agradáveis e plenas.

Aconselho vivamente a ida a esta exposição. Mas, para a apreciar correctamente, há que ir já muito bem informado sobre quem era o personagem. Literatura não falta, é só ter a curiosidade e a iniciativa de o fazer.

Monday, March 06, 2006

 

Cinema

“MUNIQUE”

“Munique” foi desta vez o filme escolhido para ocupar a sexta-feira à noite.
O nome “Spielberg” aliado à relativa actualidade do assunto do filme, parte integrante do conflito israelo-árabe, sempre a evoluir, mas no fundo, sempre em status-quo, sem solução possível devido aos radicalismos e profundas desconfianças e divergências existentes.
“Munique” existiu. Foi verdade. Assim como o seguimento da história, subterrânea, escura, apagada, mas persistente e eficaz. Eliminar vingativamente, um a um, os responsáveis pelos atentados ocorridos durante os Jogos Olímpicos de Munique, com o objectivo final de avisar sem ser por palavras vãs de que “quem mata, morre”.
Podia e devia ser um bom filme.
Não foi.
Não foi por múltiplas razões, todas relacionadas com o simples facto de que nos Estados Unidos não se produzem filmes para contar os factos reais, mas sim para “vender”. Não é a proclamada sétima arte, mas sim uma produção contínua de imagens próprias para entreter e impressionar o vulgar labrego comedor de pipocas, de cuja massa e números sem fim se extorquem os cobres necessários para enriquecer a indústria. No final, esses saem alegres e contentes, pois viram as habituais cenas de sangue a espirrar como de torneiras abertas ao limite, de buracos de balas em corpos humanos, sempre em localizações inventivas, as mais que comuns cenas de sexo, as mais que estudadas e gastas personalidades-tipo que os actores principais encarnam.
No filme, o comando enviado pelos israelitas era composto por “amadores”, que falhavam de vez em quando o fabrico de bombas, que agiam sempre de forma mais que suspeita, que fugiam a correr das cenas de crime, muitas vezes no meio de chuva cerradíssima de balas de metralhadoras, sem que nenhuma os tocasse por milagre. Quando eles próprios disparavam uma rajada, os inimigos tombavam como peças de dominós ou como os múltiplos painéis de publicidade nas estradas em dias de sudoeste mais forte. Tudo isto acompanhado de nuvens de fumo branco, tipo cigarro mal apagado, que durante uns segundos saíam dos buracos de balas dos corpos dos árabes terroristas.
Além disso, os israelitas tinham rebates de consciência quando conseguiam eliminar um dos adversários, fruto do amadorismo com que eram descritos. Mas continuavam na missão e lá iam eliminando, sempre cheios de problemas morais, riscando um a um os nomes da lista que lhes tinha sido fornecida por uma alta patente da pátria.
Acham isto possível?
Eu não.
Se foram eliminados, foram-no de certeza por “profissionais”, que não fogem a correr das cenas do crime, que não falham o fabrico de bombas, nem mostram qualquer rebate de consciência em fazê-lo.
Cinema “americano” no seu melhor e pior, com Schwarzeneggers e Rambos mais fininhos, deltóides e triceps menos desenvolvidos, mas mais poetas lamechas, mais dúvidas existencialistas, que despacham os adversários a golpes de bombas, em vez dos murros e bazookas tradicionais.
Há ainda que referir que todas estas cenas violentas eram acompanhadas do barulho ensurdecedor de duzentas maxilas de jovens, todos iguais, os representantes masculinos de cabelos espetados na frente, os representantes femininos de umbigo exposto às intempéries, a mascarem continuamente, sem descanso, quilos de pipocas brancas. Um odor persistente, enjoativo, não a carne humana morta proveniente do ecrã gigante como seria de supor nestes cinemas envolventes e sensoriais, mas sim emitido para o ar pelos metros cúbicos das mesmas pipocas confeccionadas nas cozinhas da Lusomundo.
E no final, ainda assistimos aos batalhões de mulheres de limpeza a apressarem-se a recolher todos os restos meios pisados que manchavam de branco as bonitas alcatifas da sala de cinema e corredores que lhe dava acesso.
Resta a observação final : coitado do Spielberg, nunca suficientemente rico nem liberto das grandes produtoras Hollywoodescas, para finalmente poder produzir um filme que se possa equiparar a sétima arte. Que olhe para a frente, pois foi ultrapassado em grande velocidade por Woody Allen.

“Mrs HENDERSON”

Domingo à tarde, novo filme. A chuva anulara os meus programas de ar livre.
Desta vez, cinema britânico. Joguei pelo seguro.
E aí estava a diferença abismal. A sofisticação em comparação com o primitivismo e comercialismo de “Munique”. Baixo orçamento contra fortunas gastas em explosões e efeitos especiais. Uma história verdadeira, engraçada, interpretada por fantásticos actores. Personagens interessantíssimos, bem caracterizados. Personagens reais, palpáveis, onde podemos reconhecer algumas das nossas forças e fraquezas e que no final ainda nos transmitem alguma mensagem. Sem buracos de balas nem explosões, a não ser as dos esporádicos bombardeamentos nocturnos de Londres durante a segunda guerra.
Humor britânico, tão bem doseado. Filme tranquilo, sereno, mas ao mesmo tempo cheio de acção e humanidade.
Muito resumidamente, a história descreve a gestão de um teatro que teve muito sucesso durante a segunda guerra, devido à audacidade e espírito criativo da dona e respectivo manager, que souberam inventar novas formas e tipos de espectáculo. Mais não conto, pode perder a piada.
A sala de cinema era de 86 lugares e nem metade estava ocupado. O estilo dos espectadores contrastava brutalmente com os de “Munique”. Mais velhos, mesmo quase todos da “terceira idade”, mas que riram sempre com bom gosto das cenas hilariantes que o filme apresentava. Poucas ou nenhumas pipocas. E no final, caras bem dispostas a saírem da sala, de um público que não é diferente daquele que costumo ver em salas de concertos de música clássica e que respiram gosto por arte, saber-estar e boas-maneiras.
A questão final que se põe: Será que a juventude espectadora do “Munique “ dentro de muitos anos também apreciará um “Mrs Henderson”? Ou que este tipo de filmes está condenado a desaparecer definitivamente da actualidade cinematográfica, falho de renovação de público?

Thursday, March 02, 2006

 

Tennis - A temporada recomeça

Sábado dia 4 de Março recomeça oficialmente a temporada dos interclubes. às duas da tarde, no Estoril, iremos defrontar o nosso primeiro adversário.
Estas duas últimas semanas a correspondência mail e telefónica entre os participantes da equipa aumentou muito sensivelmente, demonstrando a todos o importante que esta prova é para nós (ao contrário do que vamos habitualmente comentando). "Já estou velho para isso, já não tenho paciência, tenho mais que fazer" são os comentários habituais que se fazem ouvir.
No entanto, agora a música é outra. A adrenalina sobe para níveis agradáveis, especula-se sobre a força tenistica das outras equipas, treina-se com afinco, elaboram-se tácticas e sobretudo espera-se impacientemente e com níveis de ansiedade assaz descontrolados pelo primeiro grande embate da época. Sábado, 14.00 horas serão trocadas as primeiras bolas.
O Pedro curou o ténis-elbow, mas agora luta contra uma contractura dos gémeos e contra o tempo para a curar.
O Miguel desta vez não está, o traidor preferiu uma temporada na neve em vez de colaborar para a medalha que este ano iremos ganhar.
O Serra, igual a sempre, com o nervoso, vai fumando mais um maço de tabaco do que o habitual.
Já estamos todos em estágio, massagens, alimentação mais cuidada, preocupações em dormir o máximo possivel, de forma a podermos dar o "máximo" no próximo sábado.

Sábado à noite iremos receber as medalhas tão árduamente conquistadas no ano passado.
Será na Quinta dos Lombos, em Carcavelos, em cerimónia oficial promovida pela Camara de Cascais, para distinguir os feitos desportivos mais significativos ocorridos durante 2005. E nós lá estaremos, de blazer desempoeirado e gravata com motivos de raquetes e bolas de ténis para receber o prémio e o aperto de mão do Capucho, que tão merecidamente nos é devido.

PS : Não se esqueçam da inauguração da exposição de pintura da minha irmã - sábado 17.30 em Santos.
Vejam o artigo anterior dedicado a este evento e não faltem.

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